Durante quase um século, a indústria investiu para tornar máquinas mais rápidas e eficientes. No Paraná, a escassez de mão de obra transformou os Recursos Humanos na nova fronteira da produtividade. Tecnologia e inovação passam a conectar talentos que antes permaneciam separados pela barreira do idioma.
É um dia qualquer na rotina do RH. A Jovem haitiana Marie Natascha (19) sorri antes de responder. Não porque tenha compreendido imediatamente a pergunta, mas porque, pela primeira vez desde que chegou ao Brasil, acredita que conseguirá participar de uma entrevista de emprego em igualdade de condições. Ela desta vez será compreendida.
Entre ela e a recrutadora Karen Brinker há apenas um telefone celular. Nenhuma das duas domina o idioma da outra. Um aplicativo baseado em inteligência artificial traduz a pergunta para o francês. A resposta retorna em português poucos segundos depois. A entrevista finalmente acontece. “É como se eu estivesse no meu país”, comemora.
A frase não elimina a saudade da família, dos amigos ou da vida que ficou em seu país. Mas devolve algo essencial para qualquer profissional: a possibilidade de demonstrar conhecimento, experiência e vontade de trabalhar sem que a língua seja o primeiro obstáculo. Marie e o mundo do trabalho ainda terão alguns desafios pela frente, mas agora falam a mesma língua. A cena poderia ser apenas mais uma entrevista de emprego. Na verdade, ela sintetiza uma transformação que começa a redefinir a produtividade industrial. A falta de trabalhadores nativos provocou uma revolução silenciosa e desafiadora.
Durante décadas, a competitividade esteve diretamente associada à modernização das fábricas. A indústria investiu em automação, robótica, inteligência artificial e sistemas capazes de controlar processos com precisão cada vez maior. O Paraná tornou-se protagonista dessa transformação, consolidando um dos parques industriais mais modernos do país e incorporando tecnologias que elevaram a eficiência da produção a um patamar inédito. Mas toda revolução tecnológica produz um novo desafio.
Quando as máquinas passaram a responder com rapidez e precisão às exigências da produção, o principal limite deixou de estar nos equipamentos. Passou a estar na disponibilidade de pessoas. Essa mudança pode ser medida em números.
Levantamento do Programa Oeste em Desenvolvimento (POD) aponta que a indústria da região Oeste convive com mais de 22 mil vagas abertas. Ao mesmo tempo, dados do Observatório Regional de Governança Migratória mostram que o Paraná liderou, em 2025, a geração de empregos formais para trabalhadores migrantes no Brasil, registrando saldo de 21.023 novos vínculos. A indústria de transformação aparece como o setor que mais absorveu essa mão de obra, seguida pelo comércio e pelos serviços. Esses números não representam fenômenos distintos. Eles contam a mesma história e desenha um novo cenário.
De um lado, empresas ampliam investimentos, automatizam processos e buscam produzir mais. De outro, enfrentam dificuldades crescentes para encontrar trabalhadores capazes de acompanhar esse ritmo de expansão. A produtividade deixa, então, de depender exclusivamente da eficiência das máquinas e passa a depender da capacidade de aproveitar talentos que, até pouco tempo, permaneciam fora do alcance das empresas. Essa mudança reposiciona os Recursos Humanos dentro da indústria.
Durante muito tempo, recrutar significava selecionar profissionais disponíveis para vagas já existentes. Hoje, em muitos segmentos, o desafio é criar condições para que esses profissionais possam ser encontrados, compreendidos e integrados às equipes com rapidez. A função deixa de ser predominantemente administrativa e assume caráter estratégico. Cada vaga preenchida representa capacidade produtiva recuperada. Cada vaga ociosa significa investimento subutilizado.
TECNOLOGIA PARA DERRUBAR BARREIRAS
Foi nesse cenário que a Fiasul, uma indústria de fios localizada na Região Oeste do Estado encontrou uma resposta para um problema que parecia simples, mas produzia consequências profundas. Durante anos, candidatos chegavam às entrevistas trazendo experiência, disposição e qualificação profissional. Muitos, entretanto, retornavam para casa sem conseguir demonstrar aquilo que sabiam fazer. A dificuldade não estava na formação técnica nem na disposição para o trabalho. Estava na impossibilidade de estabelecer uma conversa.
“A falta de mão de obra deixou de ser apenas um desafio dos Recursos Humanos. Ela passou a ser um desafio da produtividade. Cada vaga que permanece aberta significa uma linha de produção operando abaixo do seu potencial, uma equipe trabalhando sob maior pressão e uma oportunidade de crescimento que a indústria deixa de aproveitar. Quando eliminamos a barreira do idioma, não estamos apenas facilitando uma entrevista de emprego. Estamos recuperando talentos que, muitas vezes, eram perdidos no primeiro contato”, afirma Karen Brinker.
A observação ajuda a compreender por que a inteligência artificial passou a ocupar um espaço diferente dentro da indústria. O ganho não está no aplicativo em si. Está naquilo que ele torna possível. Quando a barreira do idioma deixa de impedir uma entrevista, amplia-se o universo de profissionais que podem disputar uma vaga. Quando treinamentos de integração e segurança passam a ser compreendidos desde os primeiros dias de trabalho, reduzem-se falhas de comunicação que comprometem desempenho e segurança. Quando trabalhadores de diferentes nacionalidades conseguem compartilhar informações sem depender permanentemente da tradução improvisada entre colegas, o tempo necessário para sua adaptação diminui e a empresa recupera capacidade produtiva com maior rapidez. A tecnologia, nesse contexto, não substitui pessoas. Ela elimina obstáculos que impediam pessoas de demonstrar seu potencial.
Na Fiasul, aproximadamente 48% dos colaboradores contratados recentemente são migrantes internacionais. São trabalhadores vindos de diferentes países que hoje compartilham linhas de produção, responsabilidades e metas comuns. A diversidade deixou de representar um desafio operacional para tornar-se parte da estratégia de crescimento da empresa.
Para o diretor-presidente Rainer Zielasko, essa mudança amplia o próprio conceito de inovação. “Durante muitos anos investimos em equipamentos, processos e tecnologia para aumentar nossa eficiência. Continuamos fazendo isso. Mas aprendemos que produtividade também depende da capacidade de integrar pessoas. Quando diferentes culturas conseguem trabalhar juntas, a empresa amplia sua capacidade de inovar, crescer e responder aos desafios do mercado.”
Essa experiência demonstra que inovação tecnológica e responsabilidade social deixaram de caminhar em trilhas paralelas. Agora faz parte da estratégia de crescimento e sustentabilidade do processo produtivo.
A FORÇA DAS PARCERIAS
A parceria construída entre a empresa, o SESI, por meio do Programa Indústria Acolhedora, e a Embaixada Solidária evidencia que acolhimento, qualificação profissional e desenvolvimento econômico podem integrar uma mesma estratégia empresarial. Em um mercado marcado pela escassez de mão de obra, ampliar oportunidades para trabalhadores migrantes deixou de representar apenas um compromisso humanitário. Tornou-se uma resposta objetiva às necessidades da própria indústria. Enquanto parte do mundo concentra o debate nos riscos de substituição de empregos pela inteligência artificial, a experiência paranaense aponta para uma discussão diferente. A questão já não é saber se a tecnologia substituirá trabalhadores. O desafio é compreender de que maneira ela pode ampliar a capacidade das empresas de encontrar, desenvolver e aproveitar talentos.
Em 1936, Charles Chaplin mostrou uma indústria que buscava adaptar o homem às máquinas para produzir mais. Quase noventa anos depois, a indústria paranaense começa a demonstrar que a próxima fronteira da produtividade talvez dependa do movimento inverso: utilizar a tecnologia para adaptar os processos às pessoas. É justamente essa mudança que distingue os tempos modernos dos tempos inteligentes.
No fim da entrevista, Marie Natascha deixa a sala carregando a mesma expectativa de qualquer candidato. O resultado daquela seleção continua indefinido. Mas uma transformação já aconteceu. Ela primeira vez desde que chegou ao Brasil, o idioma deixou de definir até onde ela poderia chegar. E talvez essa seja a mudança mais significativa vivida pela indústria nas últimas décadas. A indústria precisa dela assim como ela precisa da indústria. A conta fecha.
A experiência da indústria paranaense sugere que a próxima revolução da produtividade dificilmente será definida apenas por novos equipamentos ou algoritmos mais sofisticados. Ela dependerá da capacidade de integrar pessoas em um mercado de trabalho cada vez mais escasso e diverso. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de automação para tornar-se um instrumento de conexão. Seu maior valor já não está em acelerar máquinas, mas em ampliar a capacidade humana de construir equipes, compartilhar conhecimento e transformar diferenças em desenvolvimento econômico.
Texto e foto por Edna Nunes da Silva
Jornalista, ativista social, especializada em Migração Refúgio e Deslocamentos e Empregabilidade.